Desembarquei em Brasília numa manhã fria, seca e poeirenta de 1962, para trabalhar na reportagem política do grande jornal do Rio de Janeiro Última Hora.

Foi buscar-me no aeroporto (à época uma construção improvisada de madeira) o velho jornalista Moacir Valadares que dirigia um pequeno jeep Willys que não podia ser estacionado sob pena de não mais funcionar. Atirei minha mala na carroceria e saltei para dentro dele com a agilidade que minha idade permitia.

Brasília era então uma cidade de pouco mais de 200.000 habitantes, e hoje cerca de 3.500.000 habitantes. A capital tinha a cor do que era: barro bruto, avermelhado e poeirento. Poucas árvores retorcidas do cerrado e nenhuma mancha de jardins.

Dois dias após conheci o já famoso jornalista Gilberto Amaral. Vigoroso, elegante e barulhento, que para aqui viera antes de mim, lá das Minas Gerais.

Tornei-me amigo dele, muito amigo, laços que cingiram nossas famílias num sentimento indestrutível de união. O casal Gilberto e Mara foi padrinho do casamento do meu filho Márcio.

Naqueles anos distantes Brasília se prestava a festas em razão da solidão reinante. O casal promovia-as muitas, e eu era um convidado permanente. Isto contribuía para alargar o nosso círculo de relações e de novas amizades.

Gilberto, jornalista social e político, reinava sobre os demais que lhe quisessem competir na captação das notícias mais frescas e precisas. Foi amigo íntimo de presidentes, ministros, congressistas e autoridades em geral.

Até os anos 70 eu não conhecia o ex-presidente Juscelino Kubitscheck. Dez dias antes de ele perder a vida num acidente de automóvel, JK esteve nesta cidade e o casal Gilberto-Mara recebeu-o para um almoço e convidou também alguns poucos amigos. Ficamos todos extasiados com as histórias de seu governo e de outros. As informações jorravam como uma cachoeira sem fim, sem que qualquer de nós sentisse a necessidade de interrompê-lo.

Homem raro, aquele!

Anos após minha chegada em Brasília, fui nomeado diretor de jornalismo da Rede Globo na capital, passando depois a editor e colunista do Correio Braziliense por anos a fio. Foi nesse tempo que propus ao dr Edilson Varela entregar meia página diária do matutino a Gilberto, oportunidade que aproveitou com grande competência e dedicação. Dali espraiou-se para a televisão e para o rádio.

Um dos últimos momentos em que estivemos ligados profissionalmente foi em Londres por ocasião da solenidade em que, como ministro de Minas e Energia, recebi uma homenagem pelo bom desempenho do ministério no setor energético. Compareceram para solidarizar-se com o Brasil que eu ali representava, ministros de vários países e alguns do governo britânico. Gilberto foi comigo, hospedamo-nos na embaixada brasileira e ele, como repórter competente, fez uma precisa cobertura dos acontecimentos.

Gilberto era meu amigo e eu gostava dele. Por 60 anos estivemos juntos.

Agora, saudoso do amigo que se foi, o rogo derradeiro: Que Deus o abrigue no Seu reino de flores.

Edison Lobão foi senador de 1987 a 1991. Entre 1995 e 2019, foi ministro de Minas e Energia nos governos de Lula e Dilma Rousseff. Também foi governador do Maranhão por um mandato (1991 a 1994) e deputado federal por três mandatos consecutivos.

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